Simões
Lopes Neto
Simões
Lopes Neto não é o narrador propriamente dito dos Contos Gauchescos, pois ele
cria um narrador anônimo, Blau Nunes, para contar os 19 contos, e o apresenta
da seguinte forma:
“Genuíno
tipo – crioulo – rio-grandense (hoje tão modificado), era Blau o guasca sadio,
a um tempo leal e ingênuo, impulsivo na alegria e na temeridade, precavido,
perspicaz, sóbrio e infatigável; e dotado de uma memória de rara nitidez
brilhando através de imaginosa e encantadora loquacidade servida e floreada
pelo vivo e pitoresco dialeto gaúcho”.
No
conto “Trezentas onças”, encontramos os seguintes fragmentos:
“Parece
que foi ontem!... Era por fevereiro; eu vinha abombado da troteada.”
O
narrador conta com nostalgia os acontecimentos, ele tem saudade do passado,
tanto que o converte em um mito, pois para ele o presente não tem o mesmo valor
que o passado, perfeito, globalizante que estimulava a aventura, e guerras eram
movidas por ideais grandiosos, como a Revolução Farroupilha, vista como “bons
tempos”, por sintetizar valores de coragem, bravura, ideal de liberdade dos
gaúchos.
“Ah!…esqueci
de dizer-lhe que andava comigo um cachorrinho brasino, um cusco mui esperto e
boa vigia. Era das crianças, mas às vezes dava-me para acompanhar-me, e depois
de sair a porteira, nem por nada fazia cara-volta, a não ser comigo. E nas
viagens dormia sempre ao meu lado, sobre a ponta da carona, na cabeceira dos
arreios”.
Como
podemos ver o cachorro é um grande companheiro do tropeiro; o “cachorrinho”,
que denota um valor afetivo, por ser das crianças, é “mui” esperto, “mui” pela
influência do espanhol nas regiões de fronteira. “Às vezes dava-me para
acompanhar-me”, vemos que Simões usa uma norma culta de linguagem, com
elementos regionalistas, como o “cusco”.
“Embaixo,
o rumor da água pipocando sobre o pedregulho; vaga-lumes retouçando no escuro.
Desci, dei com o lugar onde havia estado; tenteei os galhos do sarandi; achei a
pedra onde tinha posto a guaiaca e as armas; corri as mãos por todos os lados,
mais pra lá, mais pra cá...; nada! nada!...
Então,
senti frio dentro da alma…, o meu patrão ia dizer que eu o havia roubado!...
roubado!... Pois então eu ia lá perder as onças!... Qual! Ladrão, ladrão, é que
era!...
E
logo uma tenção ruim entrou-me nos miolos: eu devia matar-me, para não sofrer a
vergonha daquela suposição.
É;
era o que eu devia fazer: matar-me... e já, aqui mesmo!
Tirei
a pistola do cinto; armei-lhe o gatilho..., benzi-me, e encostei no ouvido o
cano, grosso e frio, carregado de bala...
Ah!
patrício! Deus existe!...
No
refilão daquele tormento, olhei para diante e vi... as Três-Marias luzindo na
água... o cusco encarapitado na pedra, ao meu lado, estava me lambendo a mão...
e logo, logo, o zaino relinchou lá em cima, na barranca do riacho, ao
mesmíssimo tempo que a cantoria alegre de um grilo retinia ali perto, num oco
de pau!...
Patrício!
não me avexo duma heresia; mas era Deus que estava no luzimento daquelas
estrelas, era ele que mandava aqueles bichos brutos arredarem de mim a má
tenção...
O
cachorrinho tão fiel lembrou-me a amizade da minha gente; o meu cavalo
lembrou-me a liberdade, o trabalho, e aquele grilo cantador trouxe a
esperança...
Eh-pucha!
patrício, eu sou mui rude... a gente vê caras, não vê corações...; pois o meu,
dentro do peito, naquela hora, estava como um espinilho ao sol, num descampado,
no pino do meio-dia: era luz de Deus por todos os lados!...
E
já todo no meu sossego de homem, meti a pistola no cinto. Fechei um baio, bati
o isqueiro e comecei a pitar.”
Quando
o gaúcho tropeiro pensa em se matar, por ter perdido a guaiaca com as trezentas
onças do seu patrão, que vai pensar que ele próprio ficou com o dinheiro e não
que foi roubado, ele pensa em se matar, mas como tem fé, desiste da ideia;
acredita que Deus manifesta-se por intermédio dos animais, o cachorro, seu
companheiro representando a amizade, por ser tão fiel, o cavalo, também
companheiro de viagem representando a liberdade, o trabalho, e o grilo lhe
trazendo a esperança. O tropeiro que tem aspecto de herói tem com os animais e
com a natureza uma comunicação particular, esta última é mitificada como sendo
perfeita.
Vejamos,
agora, um trecho do conto “O boi velho”:
“E
ria-se o inocente, para os grandes, que estavam por ali, calados, os diabos, cá
pra mim, com remorsos por aquela judiaria com o boi velho, que os havia
carregado a todos, tantas vezes, para a alegria do banho e das guabirobas, dos
araçás, das pitangas, dos guabijus!…
—
Veja vancê, que desgraçados; tão ricos… e por um mixe couro do boi velho!...
—
Cuê-pucha!…é mesmo bicho mau, o homem!”.
O
animal, símbolo sagrado para o gaúcho, neste conto, é morto por estar velho,
sem serventia, para não se perder o couro. O sacrifício do animal, que tanto
serviu aos seus donos, levando-os aos banhos e as alegrias de tirar frutas no
mato, por seus proprietários ricos, que não queriam perder um simples couro de
boi, representa uma ruptura, pois corta os laços que ligam o indivíduo com o
meio, com os animais, apenas por uma questão materialista, que não deveria
existir; ressaltando que o sacrifício é feito por pessoas da classe dominadora,
políticos, autoritários que anulam a harmonia existente até então na sociedade
gaúcha, em que o gaúcho vaqueano tem os animais como símbolos de
companheirismo. O narrador deixa claro que repudia jogos políticos, autoridade
e o sacrifício do boi, afirmando que o homem é mau por anular um relacionamento
de companheirismo com o animal.
O
livro Lendas do Sul, reúne 17 mitos transmitidos na oralidade, que foram
recolhidos e registrados pelo autor, que lhes deu formas de verdadeiras obras
primas, destas lendas, a considerada mais rio-grandense, mais popular é “O
negrinho do pastoreio”, vejamos um trecho desta lenda:
“Era
uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de onças e
meias-doblas e mais muita prataria; porém era muito cauíla e muito mau, muito.
Não
dava pousada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante; no inverno o
fogo da sua casa não fazia brasas; as geadas e o minuano podiam entanguir
gente, que a sua porta não se abria; no verão a sombra dos seus umbus só
abrigava os cachorros; e ninguém de fora bebia água das suas cacimbas.
Mas
também quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de vontade dar-lhe um
ajutório; e a campeirada folheira não gostava de conchavar-se com ele, porque o
homem só dava para comer um churrasco de tourito magro, farinha grossa e
erva-caúna e nem um naco de fumo… e tudo, debaixo de tanta somiticaria e
choradeira, que parecia que era o seu próprio couro que ele estava
lonqueando...
Só
para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino cargoso como
uma mosca, para um baio cabos-negros, que era o seu parelheiro de confiança, e
para um escravo, pequeno ainda, muito bonitinho e preto como carvão e a quem
todos chamavam somente o — Negrinho.
A
este não deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afilhado da
Virgem, Senhora Nossa, que é a madrinha de quem não a tem.
Todas
as madrugadas o Negrinho galopeava o parelheiro baio; depois conduzia os avios
do chimarrão e à tarde sofria os maus tratos do menino, que o judiava e se
ria.”
Nesta
lenda ganha enfoque os maus tratos aos escravos; retoma um tempo em que começam
a surgir as estâncias, símbolos da propriedade privada, ainda sem divisas, com
o gado em campo aberto; é nítida a caracterização do estancieiro como um homem
mau, contrapondo com a definição de gaúcho como um herói mitificado, símbolo da
generosidade e da hospitalidade. Este estancieiro não é o gaúcho idealizado por
Simões Lopes Neto, que idealiza apenas o protótipo heroico, corajoso, o peão.
Cyro
Martins
Para
iniciar a análise da obra de Cyro Martins, usaremos sua própria fala:
Quero
salientar que nunca quis contribuir com a ampliação da mentira do monarca das
cochilas. Nunca trarei o gaúcho como personagem em estilo ufanista. Pelo
contrário, procurei ser realista, para poder ser útil de alguma forma. (Cyro
Martins).
Nas
palavras do culto ensaísta Guilhermino Cesar:
Cyro
Martins, em sua estreia em 1934, com os contos regionais de 'Campo fora',
trouxe ao gênero uma perspectiva social que todos os críticos têm valorizado; e
sob este ângulo é que, no futuro, será ainda lembrado, quando todas as 'modas'
de hoje estiverem esquecidas. Mas a meu ver, há nele um traço que o singulariza
entre seus companheiros, tão importante, afinal, como sua temática: o modo de
narrar.
Na
trilogia do “Gaúcho a pé”, podemos ver uma temática que surgiu a partir de um
modo de viver os problemas, da sua circunstância social. Deste modo, a trilogia
é composta de Sem rumo, Porteira fechada e Estrada nova, obras nas quais o
autor faz uma operação dolorosa dos problemas socioeconômicos que afligem a
campanha a partir das décadas de 1910 e 1920.
Em
Sem rumo o primeiro romance que compõe a trilogia do gaúcho a pé, o contexto
histórico predominante é a supremacia do Partido Republicano Rio-Grandense. Há
conjuntos de referências aos fatos reais apresentados por Cyro Martins, nos
quais podemos destacar a menção à República Velha, ao governo de Borges de
Medeiros, à República Nova e ao processo eleitoral da época, o qual era marcado
pela violência, pela fraude, pelo voto secreto e pela possibilidade do voto
feminino.
“- Estou fazendo tudo que posso, doutor. Mas,
o sr. sabe, o pessoal é sem-vergonha, sem palavra. Além disto, nesta eles estão
vindo de a cabresto. E com esta invenção, agora, de voto feminino, a situação
piorou muito, porque o Dr. Rogério andou de casa em casa, pedindo voto pra tudo
quanto foi mulher que pariu nas mãos dele! Já se viu proceder mais deslavado? E
depois quer passar por humanitário! E os coiós inda carregaram ele nos
ombros!...”
Podemos
ver neste trecho um questionamento sobre a forma como se procedia para obter
votos, as fraudes eleitorais eram muito comuns.
“O auto parou bem em frente
à porta do rancho. O motor ficou ligado. Lopes espichou o pescoço e gritou:
- Anda depressa, homem, que
está na hora.
Chiru mal atou as cordas dos
sapatos novos. Enfiou o casaco de carregação, novo também. Embarcou no auto.
Lopes virou-se para ele, passando-lhe ao mesmo tempo um cartão dobrado e
impresso, listrado de verde e amarelo. Chiru olhou para aquilo sem compreender.
- É o título. João Fernandes
da Silva é o teu nome. Não esqueça. E isto (alcançando outro papel) é a chapa.
Tem que meter dentro do envelope que o presidente da mesa te der. E não vai te
bobear tentando trocar de chapa, porque a eleição toda está sob controle.
[...]”
Existe
aqui um diálogo entre a história da época e a ficção criada por Cyro.
Em
Porteira fechada os detentores do poder político perdem força, dentre os fatos
reais inseridos na obra, apresenta- se o declínio do poder do Partido Republicano
Rio-Grandense.
“Leandro resvalou um olhar
demorado, cheio de significação, pelas costas volumosas do capitão.
Conhecia-lhe a fama, e só de lembrar certos fatos da sua vida, arrepiava-se.
Mas isso não impedia que o tratasse com delicadeza. Demais, eram correligionários...
E Fagundes não perdia oportunidade para se vangloriar de ser homem de confiança
do Coronel Ramiro, chefe incontestável do município.”
Acima,
observa-se mais uma vez as ações que caracterizavam o modo de agir dos
republicanos, marcado pelo abuso de autoridade, pela violência e pelo
predomínio do poder dos coronéis.
“Como fora capaz?
Naturalmente, fora vítima, deixando-se iludir, não atinando nas consequências
más, pensando só nas vantagens. E que vantagens teria?
O coronel sim, vira-se livre
de mais um adversário perigoso. Mas ele... Bem feito, um índio cru se metendo
com os graúdos! E se não fossem estes, que lhe metiam o toucinho e lhe forravam
as costas, por conveniência própria, claro, talvez ele não houvesse cometido
nenhum daqueles crimes... E não duvidava que ainda lhe tocasse a pagar com uma
bala nos miolos as barbaridades cometidas havia tantos anos e até agora
impunes.”
Além
de representar o decaimento do poder do Partido Republicado, novamente se
retoma o sistema eleitoral da época, centralizado nas trocas de favores entre
chefes políticos e aliados e, também, nas fraudes nos processos de votação.
A
última obra, Estrada nova apresenta uma nova perspectiva política, em sua
essência, novas possibilidades são inseridas no Rio Grande do Sul.
“- Arrendei aquela estância
durante quatorze anos. Todo o mundo de fora pensava que era minha a
propriedade. Eu mesmo achava que não ia sair mais dali, pois tencionava
seriamente comprar o Espinilho. Mas um belo dia, isso não foi muito antes da
guerra, lá por fins de 37, no ano do Estado Novo, apareceu um castelhano
endinheirado e o dono não teve dúvida em negociar com ele. Quando dei pela
história, esperneei, fiz também a minha proposta. Mas a do outro cobria longe a
minha.”
O
Estado Novo e a Revolução de 30 são mencionados. Essa referência aparece quando
o coronel Teodoro busca compreender o significado da palavra “demagogia”.
Utilizando-se para isso de seu dicionário disponível em uma estante:
“De posse do grosso volume,
pegou os óculos e voltou para a sua cadeira, pondo-se a folhear sem pressa o
livro sábio, para o qual não havia segredo [...]”.
Agora
se fazia política para toda finalidade, mesmos as coisas até então
desconhecidas no processo eleitoral, gora eram discutidas. Não se lia mais um
discurso político que não falasse em energia elétrica, nos ferroviários, nos
mineiros e, sobretudo na classe operária.
Olá meninas, parabéns pelo blog. A literatura gaúcha é fascinante!!!!
ResponderExcluirMuito Obrigada!!! O blog de vocês também está incrível!
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