domingo, 28 de abril de 2013

OBRAS BREVEMENTE COMENTADAS

Simões Lopes Neto

Simões Lopes Neto não é o narrador propriamente dito dos Contos Gauchescos, pois ele cria um narrador anônimo, Blau Nunes, para contar os 19 contos, e o apresenta da seguinte forma:
“Genuíno tipo – crioulo – rio-grandense (hoje tão modificado), era Blau o guasca sadio, a um tempo leal e ingênuo, impulsivo na alegria e na temeridade, precavido, perspicaz, sóbrio e infatigável; e dotado de uma memória de rara nitidez brilhando através de imaginosa e encantadora loquacidade servida e floreada pelo vivo e pitoresco dialeto gaúcho”.
No conto “Trezentas onças”, encontramos os seguintes fragmentos:
“Parece que foi ontem!... Era por fevereiro; eu vinha abombado da troteada.”
O narrador conta com nostalgia os acontecimentos, ele tem saudade do passado, tanto que o converte em um mito, pois para ele o presente não tem o mesmo valor que o passado, perfeito, globalizante que estimulava a aventura, e guerras eram movidas por ideais grandiosos, como a Revolução Farroupilha, vista como “bons tempos”, por sintetizar valores de coragem, bravura, ideal de liberdade dos gaúchos.
“Ah!…esqueci de dizer-lhe que andava comigo um cachorrinho brasino, um cusco mui esperto e boa vigia. Era das crianças, mas às vezes dava-me para acompanhar-me, e depois de sair a porteira, nem por nada fazia cara-volta, a não ser comigo. E nas viagens dormia sempre ao meu lado, sobre a ponta da carona, na cabeceira dos arreios”.
Como podemos ver o cachorro é um grande companheiro do tropeiro; o “cachorrinho”, que denota um valor afetivo, por ser das crianças, é “mui” esperto, “mui” pela influência do espanhol nas regiões de fronteira. “Às vezes dava-me para acompanhar-me”, vemos que Simões usa uma norma culta de linguagem, com elementos regionalistas, como o “cusco”.
“Embaixo, o rumor da água pipocando sobre o pedregulho; vaga-lumes retouçando no escuro. Desci, dei com o lugar onde havia estado; tenteei os galhos do sarandi; achei a pedra onde tinha posto a guaiaca e as armas; corri as mãos por todos os lados, mais pra lá, mais pra cá...; nada! nada!...
Então, senti frio dentro da alma…, o meu patrão ia dizer que eu o havia roubado!... roubado!... Pois então eu ia lá perder as onças!... Qual! Ladrão, ladrão, é que era!...
E logo uma tenção ruim entrou-me nos miolos: eu devia matar-me, para não sofrer a vergonha daquela suposição.
É; era o que eu devia fazer: matar-me... e já, aqui mesmo!
Tirei a pistola do cinto; armei-lhe o gatilho..., benzi-me, e encostei no ouvido o cano, grosso e frio, carregado de bala...
Ah! patrício! Deus existe!...
No refilão daquele tormento, olhei para diante e vi... as Três-Marias luzindo na água... o cusco encarapitado na pedra, ao meu lado, estava me lambendo a mão... e logo, logo, o zaino relinchou lá em cima, na barranca do riacho, ao mesmíssimo tempo que a cantoria alegre de um grilo retinia ali perto, num oco de pau!...
Patrício! não me avexo duma heresia; mas era Deus que estava no luzimento daquelas estrelas, era ele que mandava aqueles bichos brutos arredarem de mim a má tenção...
O cachorrinho tão fiel lembrou-me a amizade da minha gente; o meu cavalo lembrou-me a liberdade, o trabalho, e aquele grilo cantador trouxe a esperança...
Eh-pucha! patrício, eu sou mui rude... a gente vê caras, não vê corações...; pois o meu, dentro do peito, naquela hora, estava como um espinilho ao sol, num descampado, no pino do meio-dia: era luz de Deus por todos os lados!...
E já todo no meu sossego de homem, meti a pistola no cinto. Fechei um baio, bati o isqueiro e comecei a pitar.”
Quando o gaúcho tropeiro pensa em se matar, por ter perdido a guaiaca com as trezentas onças do seu patrão, que vai pensar que ele próprio ficou com o dinheiro e não que foi roubado, ele pensa em se matar, mas como tem fé, desiste da ideia; acredita que Deus manifesta-se por intermédio dos animais, o cachorro, seu companheiro representando a amizade, por ser tão fiel, o cavalo, também companheiro de viagem representando a liberdade, o trabalho, e o grilo lhe trazendo a esperança. O tropeiro que tem aspecto de herói tem com os animais e com a natureza uma comunicação particular, esta última é mitificada como sendo perfeita.
Vejamos, agora, um trecho do conto “O boi velho”:
“E ria-se o inocente, para os grandes, que estavam por ali, calados, os diabos, cá pra mim, com remorsos por aquela judiaria com o boi velho, que os havia carregado a todos, tantas vezes, para a alegria do banho e das guabirobas, dos araçás, das pitangas, dos guabijus!…
— Veja vancê, que desgraçados; tão ricos… e por um mixe couro do boi velho!...
— Cuê-pucha!…é mesmo bicho mau, o homem!”.
O animal, símbolo sagrado para o gaúcho, neste conto, é morto por estar velho, sem serventia, para não se perder o couro. O sacrifício do animal, que tanto serviu aos seus donos, levando-os aos banhos e as alegrias de tirar frutas no mato, por seus proprietários ricos, que não queriam perder um simples couro de boi, representa uma ruptura, pois corta os laços que ligam o indivíduo com o meio, com os animais, apenas por uma questão materialista, que não deveria existir; ressaltando que o sacrifício é feito por pessoas da classe dominadora, políticos, autoritários que anulam a harmonia existente até então na sociedade gaúcha, em que o gaúcho vaqueano tem os animais como símbolos de companheirismo. O narrador deixa claro que repudia jogos políticos, autoridade e o sacrifício do boi, afirmando que o homem é mau por anular um relacionamento de companheirismo com o animal.
O livro Lendas do Sul, reúne 17 mitos transmitidos na oralidade, que foram recolhidos e registrados pelo autor, que lhes deu formas de verdadeiras obras primas, destas lendas, a considerada mais rio-grandense, mais popular é “O negrinho do pastoreio”, vejamos um trecho desta lenda:
“Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de onças e meias-doblas e mais muita prataria; porém era muito cauíla e muito mau, muito.
Não dava pousada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante; no inverno o fogo da sua casa não fazia brasas; as geadas e o minuano podiam entanguir gente, que a sua porta não se abria; no verão a sombra dos seus umbus só abrigava os cachorros; e ninguém de fora bebia água das suas cacimbas.
Mas também quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de vontade dar-lhe um ajutório; e a campeirada folheira não gostava de conchavar-se com ele, porque o homem só dava para comer um churrasco de tourito magro, farinha grossa e erva-caúna e nem um naco de fumo… e tudo, debaixo de tanta somiticaria e choradeira, que parecia que era o seu próprio couro que ele estava lonqueando...
Só para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino cargoso como uma mosca, para um baio cabos-negros, que era o seu parelheiro de confiança, e para um escravo, pequeno ainda, muito bonitinho e preto como carvão e a quem todos chamavam somente o — Negrinho.
A este não deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afilhado da Virgem, Senhora Nossa, que é a madrinha de quem não a tem.
Todas as madrugadas o Negrinho galopeava o parelheiro baio; depois conduzia os avios do chimarrão e à tarde sofria os maus tratos do menino, que o judiava e se ria.”
Nesta lenda ganha enfoque os maus tratos aos escravos; retoma um tempo em que começam a surgir as estâncias, símbolos da propriedade privada, ainda sem divisas, com o gado em campo aberto; é nítida a caracterização do estancieiro como um homem mau, contrapondo com a definição de gaúcho como um herói mitificado, símbolo da generosidade e da hospitalidade. Este estancieiro não é o gaúcho idealizado por Simões Lopes Neto, que idealiza apenas o protótipo heroico, corajoso, o peão.

Cyro Martins

Para iniciar a análise da obra de Cyro Martins, usaremos sua própria fala:

Quero salientar que nunca quis contribuir com a ampliação da mentira do monarca das cochilas. Nunca trarei o gaúcho como personagem em estilo ufanista. Pelo contrário, procurei ser realista, para poder ser útil de alguma forma. (Cyro Martins).

Nas palavras do culto ensaísta Guilhermino Cesar:

Cyro Martins, em sua estreia em 1934, com os contos regionais de 'Campo fora', trouxe ao gênero uma perspectiva social que todos os críticos têm valorizado; e sob este ângulo é que, no futuro, será ainda lembrado, quando todas as 'modas' de hoje estiverem esquecidas. Mas a meu ver, há nele um traço que o singulariza entre seus companheiros, tão importante, afinal, como sua temática: o modo de narrar.

Na trilogia do “Gaúcho a pé”, podemos ver uma temática que surgiu a partir de um modo de viver os problemas, da sua circunstância social. Deste modo, a trilogia é composta de Sem rumo, Porteira fechada e Estrada nova, obras nas quais o autor faz uma operação dolorosa dos problemas socioeconômicos que afligem a campanha a partir das décadas de 1910 e 1920.
Em Sem rumo o primeiro romance que compõe a trilogia do gaúcho a pé, o contexto histórico predominante é a supremacia do Partido Republicano Rio-Grandense. Há conjuntos de referências aos fatos reais apresentados por Cyro Martins, nos quais podemos destacar a menção à República Velha, ao governo de Borges de Medeiros, à República Nova e ao processo eleitoral da época, o qual era marcado pela violência, pela fraude, pelo voto secreto e pela possibilidade do voto feminino.
 “- Estou fazendo tudo que posso, doutor. Mas, o sr. sabe, o pessoal é sem-vergonha, sem palavra. Além disto, nesta eles estão vindo de a cabresto. E com esta invenção, agora, de voto feminino, a situação piorou muito, porque o Dr. Rogério andou de casa em casa, pedindo voto pra tudo quanto foi mulher que pariu nas mãos dele! Já se viu proceder mais deslavado? E depois quer passar por humanitário! E os coiós inda carregaram ele nos ombros!...”
Podemos ver neste trecho um questionamento sobre a forma como se procedia para obter votos, as fraudes eleitorais eram muito comuns.
“O auto parou bem em frente à porta do rancho. O motor ficou ligado. Lopes espichou o pescoço e gritou:
- Anda depressa, homem, que está na hora.
Chiru mal atou as cordas dos sapatos novos. Enfiou o casaco de carregação, novo também. Embarcou no auto. Lopes virou-se para ele, passando-lhe ao mesmo tempo um cartão dobrado e impresso, listrado de verde e amarelo. Chiru olhou para aquilo sem compreender.
- É o título. João Fernandes da Silva é o teu nome. Não esqueça. E isto (alcançando outro papel) é a chapa. Tem que meter dentro do envelope que o presidente da mesa te der. E não vai te bobear tentando trocar de chapa, porque a eleição toda está sob controle. [...]”
Existe aqui um diálogo entre a história da época e a ficção criada por Cyro.
Em Porteira fechada os detentores do poder político perdem força, dentre os fatos reais inseridos na obra, apresenta- se o declínio do poder do Partido Republicano Rio-Grandense.
“Leandro resvalou um olhar demorado, cheio de significação, pelas costas volumosas do capitão. Conhecia-lhe a fama, e só de lembrar certos fatos da sua vida, arrepiava-se. Mas isso não impedia que o tratasse com delicadeza. Demais, eram correligionários... E Fagundes não perdia oportunidade para se vangloriar de ser homem de confiança do Coronel Ramiro, chefe incontestável do município.”
Acima, observa-se mais uma vez as ações que caracterizavam o modo de agir dos republicanos, marcado pelo abuso de autoridade, pela violência e pelo predomínio do poder dos coronéis.
“Como fora capaz? Naturalmente, fora vítima, deixando-se iludir, não atinando nas consequências más, pensando só nas vantagens. E que vantagens teria?
O coronel sim, vira-se livre de mais um adversário perigoso. Mas ele... Bem feito, um índio cru se metendo com os graúdos! E se não fossem estes, que lhe metiam o toucinho e lhe forravam as costas, por conveniência própria, claro, talvez ele não houvesse cometido nenhum daqueles crimes... E não duvidava que ainda lhe tocasse a pagar com uma bala nos miolos as barbaridades cometidas havia tantos anos e até agora impunes.”
Além de representar o decaimento do poder do Partido Republicado, novamente se retoma o sistema eleitoral da época, centralizado nas trocas de favores entre chefes políticos e aliados e, também, nas fraudes nos processos de votação.
A última obra, Estrada nova apresenta uma nova perspectiva política, em sua essência, novas possibilidades são inseridas no Rio Grande do Sul.
“- Arrendei aquela estância durante quatorze anos. Todo o mundo de fora pensava que era minha a propriedade. Eu mesmo achava que não ia sair mais dali, pois tencionava seriamente comprar o Espinilho. Mas um belo dia, isso não foi muito antes da guerra, lá por fins de 37, no ano do Estado Novo, apareceu um castelhano endinheirado e o dono não teve dúvida em negociar com ele. Quando dei pela história, esperneei, fiz também a minha proposta. Mas a do outro cobria longe a minha.”
O Estado Novo e a Revolução de 30 são mencionados. Essa referência aparece quando o coronel Teodoro busca compreender o significado da palavra “demagogia”. Utilizando-se para isso de seu dicionário disponível em uma estante:
“De posse do grosso volume, pegou os óculos e voltou para a sua cadeira, pondo-se a folhear sem pressa o livro sábio, para o qual não havia segredo [...]”.
Agora se fazia política para toda finalidade, mesmos as coisas até então desconhecidas no processo eleitoral, gora eram discutidas. Não se lia mais um discurso político que não falasse em energia elétrica, nos ferroviários, nos mineiros e, sobretudo na classe operária.

2 comentários:

  1. Olá meninas, parabéns pelo blog. A literatura gaúcha é fascinante!!!!

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    1. Muito Obrigada!!! O blog de vocês também está incrível!

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